Anabela Reis

Somos (quase) todos comerciais! Halloween vs Pão por Deus

A sociedade atual tornou-se conservadora e moralista, mas proclama cabeças fora da caixa, flexibilidade e liberdade.

É frequente abrirmos as redes sociais e vermos afirmações radicais em pessoas que se autoproclamam de “inteligentes e informadas”. Não são.

O que de facto faz mal é o radicalismo desmedido e a inflexibilidade.

Coisas simples de compreender

Vivemos num mundo globalizado. Quer goste ou não disso, vivemos.

Hoje, com a ascensão das novas tecnologias que aproximaram tanto os vários países do mundo, potenciaram o desenvolvimento comercial e afastaram as pessoas, somos todos culturalmente globais também, praticando coisas que já não sabemos bem se são da nossa cultura, da brasileira, da espanhola ou de outra qualquer. E que bom que isso é. Sobretudo porque há sempre lugar a que no futuro se saiba mais sobre esse hábito cultural e a aprender com isso.

Que bom que hoje posso fazer uma cachupa de Cabo Verde, um funge Angolano e uma massa Chinesa, coisa que há uns 15 anos atrás não era tão possível. Hoje o Youtube mostra-me cozinheiros de Cabo Verde, cozinheiros Angolanos que me ensinam a fazer tudo, saiba eu escolher o que quero fazer.

O bem e o mal sempre existiram

Estamos sempre a dizer que os nossos filhos passam mal, tem acesso a coisas que inspiram maldade, quando o problema nunca foi nem das informações que estão disponíveis, nem dos nossos filhos: o problema é dos pais e da escola, mas só é dos pais relapsos e dos professores relapsos. Contra mim falo que tenho um filho e do futuro nada se sabe. No entanto, educar e ensinar limites é uma responsabilidade nossa sempre. Por isso o bem e o mal aprendem-se em casa.

A internet pode estar apinhada de informações maldosas: se os nossos filhos souberem o que é o mal, saberão filtrar essa informação. Saberão dizer que não. Saberão perguntar aos pais o que é aquilo. Saberão conversar com os pais. Haja abertura na família para isso.

Gosta de cinema?

Gosta de cinema? Que bom. Eu gosto muito também. E foi no cinema que aprendi o que é o Halloween. Na altura nem me fazia muito sentido, mas achava piada aos rituais. Depois, a viver nos Estados Unidos, em Nova Iorque, comecei a gostar e a ver uma forma metafórica de ensinar o que é o mal e a sombra.

O que é o Halloween, a Noite das Bruxas?

O Halloween celebra-se anualmente no dia 31 de outubro. Nesta noite celebra-se as trevas, celebra-se a morte, celebra-se o terror. O Halloween marca o desespero que a morte nos causa, a perda de alguém. Nesta noite dá-se a morte como o fim da existência humana e encara-se o ser humano como solitário neste percurso de morte.

Nos Estados Unidos, e agora também em Portugal e um pouco por todo o mundo, as crianças saem à rua fantasiadas de demónios e pedem doces porta-a-porta, e ameaçam de forma fofa os donos da casa com: “doçura ou travessura?” (trick or treat?), e vingam-se de quem não dá doces (geralmente habilitam-se a ter arvores no jardim enfeitadas com papel higiénico e paredes pintadas com uma mistura de farinha, água e corantes de cozinha com cores.

O Halloween é um ritual pagão em que supostamente se invoca o demónio e os demónios. O cinema explorou isto bem e a indústria das fantasias começou a fazer muito negócio, como de resto noutros eventos pelo ano.

É mau? É errado? Não.

O que é que mexe a economia? O consumismo moderado e sustentável.

O que é que mexe a nossa vida? Os eventos engraçados e as brincadeiras. O lazer e o descanso.

O que é que dá trabalho e emprego aos outros? O consumismo moderado e sustentável.

O que é que melhora a nossa vida? Brincar, relaxar, rir e criar.

Como podemos aproveitar pedagogicamente estes eventos para educar os nossos filhos? A ter tempo para explicar isto tudo precisamente.

O Halloween é melhor do que o evento português “Pão por Deus”? Não. Também não é pior. São eventos culturais e ambos podem ter lugar. São duas boas situações para os nossos filhos se divertirem bem e nós também.

O que é o “Pão por Deus”?

O Pão por Deus celebra-se anualmente no dia 1 de novembro. É um ritual cristão, que se foca no Amor a Deus. Celebra a vida, celebra a esperança.

As crianças percorrem as ruas, vestidas normalmente, pedindo ofertas e oferendas com a expressão: “Pão por Deus”. Diz o culto que quem faz oferendas liberta almas do purgatório.

Esta celebração está muito fundamentada na generosidade e da dádiva ao outro.

É importante o “Pão por Deus”? É importante sim, especialmente para as famílias cristãs, que praticam o catolicismo.

O que é que mexe na nossa vida? Mesmo sendo ateus os pais (como eu de resto), conhecimento é vital, aproveitam e explicam aos filhos o que é a igreja, o cristianismo, o que se espera e se aprende com este ritual.

O que é que melhora a nossa vida? Brincar, relaxar, aprender, rir e criar.

Como podemos aproveitar pedagogicamente estes eventos para educar os nossos filhos? A ter tempo para explicar isto tudo precisamente.

O “Pão por Deus”  é melhor do que o Halloween”? Não. Também não é pior. São eventos culturais e ambos podem ter lugar. São duas boas situações para os nossos filhos se divertirem bem e nós também.

É tudo possível

É tudo possível. Tudo convive em conjunto. Tudo pode ter espaço. Tudo é criatividade conhecimento e aprendizagem.

Lembre-se sobretudo sempre disto: o mundo é ilimitado: de bom, de mau, de acesso à informação, de verdade, de mentira, os limites são sempre nossos. Sempre. Os limites aprendem-se em casa, na família e com os cuidadores e educadores. Sempre.

Por isso, acolha e eduque com pedagogia. O conhecimento não ocupa lugar. O mesmo se passa com o brincar!